Saiba os sintomas, fatores de risco, exames importantes e como proteger a função dos rins.
A doença renal crônica acontece quando os rins passam a funcionar abaixo do normal ou apresentam alguma alteração na sua estrutura.
Isso significa que os rins têm dificuldade para filtrar o sangue adequadamente, acumulando substância tóxicas e levando a uma série de complicações
A doença renal crônica afeta cerca de 10 a 13% da população mundial. No Brasil, estima-se que mais de 20 milhões de pessoas tenham algum grau de alteração na função dos rins, muitas vezes sem saber.
Isso acontece porque, na maioria das vezes, a doença evolui de forma lenta e silenciosa, principalmente no início. Muitas pessoas passam anos com alterações nos rins sem apresentar sintomas ou perceber qualquer sinal.
Por isso, identificar fatores de risco e realizar acompanhamento com o nefrologista é fundamental para avaliar a função renal, investigar possíveis causas associadas e ajudar na prevenção de complicações ao longo do tempo.

Dra. Camila Barbosa Lyra é médica nefrologista em Recife, com atuação voltada ao cuidado individualizado de pacientes com doenças renais.
Com mais de 10 anos de experiência como nefrologista, tem mestrado e doutorado pela UFPE e atua como preceptora no Hospital da Clínicas – UFPE.
Sua trajetória reforça o compromisso com uma medicina atualizada, cuidadosa e baseada em evidências científicas.
Suas consultas são realizadas com tempo e atenção, permitindo um cuidado mais completo, humano e individualizado, focado no paciente.
O que é Doença Renal Crônica?
A Doença Renal Crônica acontece quando existe uma alteração na função ou na estrutura dos rins que persiste por mais de três meses.
Isso significa que os rins estão trabalhando menos que o ideal.
Em alguns casos, a redução da função renal acontece lentamente ao longo de muitos anos. Em outros, pode evoluir de forma mais rápida, especialmente quando a causa não é tratada adequadamente.

O grande desafio é que, no início, a doença costuma ser silenciosa. Muitas pessoas descobrem alterações nos rins apenas em exames de rotina ou quando a doença já está avançada
Quais são as principais causas da Doença Renal Crônica?
Existem várias doenças que podem afetar os rins. As mais comuns são:
- hipertensão arterial
- diabetes
- doenças glomerulares
- doenças renais com componente hereditário
- doenças renais císticas
- cálculo renal recorrente (pedra nos rins)
- infecção urinária de repetição
- uso frequente de anti-inflamatórios
- Obesidade
A hipertensão e a diabetes são as principais causas de doença renal crônica, correspondendo a 70% das casos. A diabetes é a principal causa de doença renal crônica em hemodiálise no mundo.
Por isso, pacientes com pressão alta, diabetes ou alterações nos exames renais devem realizar acompanhamento com o nefrologista para avaliação da função dos rins, diagnóstico precoce e prevenção da progressão da doença renal crônica.

A Doença Renal Crônica causa sintomas?
Nas fases iniciais, geralmente não.
Esse é um dos principais motivos pelos quais a doença pode passar despercebida durante muito tempo.
Com a progressão da doença, alguns sintomas podem surgir.
O que você pode sentir se tiver Doença Renal Crônica?
Os sintomas variam de acordo com o estágio da doença e podem ser sintomas comuns a outras doenças. Em geral, os sintomas começam a aparecer nas fases mais avançadas da doença.
Os sinais mais comuns são:
- Cansaço excessivo
- Fraqueza no corpo
- Falta de apetite
- Náuseas e vômitos
- Perda de peso sem explicação
- Gosto ruim ou metálico na boca
- Mau hálito diferente
- Coceira no corpo
- Inchaço nas pernas ou no rosto
- Falta de ar
- Redução da quantidade de urina
- Pressão alta, difícil de controlar
- Sonolência excessiva
- Dificuldade de concentração
- Confusão mental
- Irritabilidade
- Tremores
Em casos mais graves, a pessoa pode ficar muito sonolenta, desorientada ou até apresentar alterações mais sérias, como convulsão e coma.

Esses sintomas são sinais de que os rins não estar conseguindo filtrar o sangue adequadamente e indicam necessidade de avaliação médica.
Nem sempre esses sintomas significam doença renal, mas merecem investigação quando persistem.
Como saber se tenho Doença Renal Crônica?
O diagnóstico é realizado através de exames laboratoriais simples, associado a exame de imagem para avaliação de tamanho e aspecto dos rins.
Na maioria das vezes, o paciente descobre alterações durante avaliações de rotina. Qualquer alteração nos exames de sangue, urina ou imagem deve ser valorizada e encaminhado ao nefrologista para avaliação
É importante saber…
A doença renal costuma evoluir lentamente e de forma silenciosa. Por isso, muitas pessoas só descobrem o problema em fases mais avançadas.
O diagnóstico precoce da Doença Renal Crônica é fundamental para reduzir a velocidade de progressão da doença, prevenir complicações e preservar a função dos rins por mais tempo.
Quanto mais cedo a alteração renal é identificada, maiores são as chances de controlar os fatores de risco e iniciar medidas que ajudam a proteger os rins ao longo do tempo.
O acompanhamento com o nefrologista é de extrema importância para avaliar cada caso de forma individualizada, orientar o tratamento mais adequado, monitorar a evolução da função renal e tratar complicações nas fases mais avançadas da doença.
Quais exames ajudam a identificar Doença Renal Crônica?
Os exames mais utilizados são:
· Creatinina no sangue
É um exame de sangue que ajuda a avaliar o funcionamento dos rins. O valor da creatinina no sangue, juntamente com a idade e o sexo de paciente são utilizados para quantificar a função dos rins, através de uma fórmula matemática.
Quando a creatinina sobe, pode significar perda da função renal.

É importante lembrar que pequenas alterações podem ou não ser relevantes, a depender da idade, peso, massa muscular e contexto clínico de cada paciente.
· Taxa de filtração glomerular (TFG)
A TFG estima quanto os rins conseguem filtrar.
Pode ser calculada por exames de sangue – utilizando a creatinina ou creatinina + cistatina C – ou através de exames de sangue e urina de 24 horas – utilizando o valor de creatinina sanguínea + creatinina urinária + volume urinário.
O cálculo da TFG ajuda a definir o estágio da doença renal.
· Sumário de urina
O sumário de urina ou elementos anormais e sedimento (EAS) é um exame simples, rápido e de baixo custo. Ele consegue avaliar diversas alterações urinárias:
- alterações na concentração da urina
- alterações da acidificação urinária
- sangue na urina
- proteína na urina
- sinais de inflamação
- sinais de infecção urinária

· Relação albumina/creatinina urinária (RAC)
A relação albumina/creatinina urinária (RAC) é um dos exames mais importantes na avaliação da Doença Renal Crônica.
Ela serve para detectar a presença de albumina na urina, que pode ser um dos primeiros sinais de lesão nos rins — muitas vezes antes mesmo da creatinina subir.
Por que a RAC é tão importante?
- Detecta doença renal precocemente
- Ajuda a identificar lesão renal “silenciosa”
- Avalia risco de progressão da DRC
- Auxilia na definição do tratamento
- Ajuda a monitorar resposta ao tratamento
- Também se relaciona com maior risco cardiovascular
Pacientes com maior quantidade de albumina na urina têm maior risco de:
- Piora mais rápida da função renal ao longo do tempo
- Necessidade de diálise no futuro,
- Infarto
- Acidente vascular cerebral (AVC)
- Insuficiência cardíaca
A RAC é um exame simples, realizado em amostra isolada de urina, sem necessidade de urina de 24 horas na maioria dos casos.
· Ultrassonografia dos rins e vias urinárias
Em alguns casos, o nefrologista pode solicitar ultrassonografia de rins e vias urinárias para avaliar:
- Tamanho dos rins
- Aspecto dos rins
- Presença de pedras
- Avaliação de cistos renais
- Obstruções
- Alterações estruturais

Em determinadas situações também se faz necessárias a avaliação do tamanho da próstata e a medida de resíduo pós-miccional (medição do volume da bexiga antes e após urinar).
O que são os estágios da Doença Renal Crônica?
A doença renal crônica costuma ser dividida em 5 estágios conforme a função dos rins e a quantidade de albumina na urina.
Os estágios da Doença Renal Crônica mostram quanto os rins ainda conseguem funcionar. Nos estágios iniciais, o paciente pode não apresentar sintomas. Nos estágios mais avançados, podem surgir sintomas e complicações importantes.
Como os médicos sabem o estágio da Doença Renal Crônica?
Através de exames de sangue e urina, são eles:
- Creatinina
- Cálculo da taxa de filtração dos rins (TFG)
- Pesquisa de albumina na urina
Entendendo os estágios de forma simples:
o Estágios 1 e 2
Os rins ainda funcionam bem ou quase normalmente, mas já existem sinais de lesão renal. Muitas vezes, não há sintomas e as alterações aparece apenas nos exames.
o Estágio 3
Os rins começam a trabalhar com mais dificuldade. Algumas pessoas podem apresentar: pressão alta, anemia, inchaço leve. Ainda assim, muitos pacientes continuam sem sintomas importantes.
o Estágio 4
A função renal está bastante reduzida. Podem surgir:
- fraqueza
- pressão alta
- inchaço
- alterações nos exames de sangue
Nesta fase, o acompanhamento com nefrologista se torna ainda mais importante.
o Estágio 5
O estágio 5 da Doença Renal Crônica representa a fase mais avançada da perda da função dos rins. Nessa fase, os rins funcionam pouco e podem não conseguir eliminar adequadamente toxinas e excesso de líquidos do organismo. Por isso, sintomas e alterações laboratoriais são mais comuns nesta fase.
Apesar disso, é importante saber que alguns pacientes podem permanecer por um período com poucos sintomas ou até praticamente sem sintomas importantes, mesmo com função renal bastante reduzida.
Nesta fase, o acompanhamento especializado pelo nefrologista torna-se indispensável para controlar os sintomas, reduzir complicações e para o planejamento seguro do início da hemodiálise, quando necessária.

Estágio 5 é igual a hemodiálise?
A necessidade de diálise não depende apenas de um número isolado da creatinina ou do Taxa de filtração glomerular. A decisão é individualizada e leva em consideração:
- Sintomas (perda de apetite, náuseas, vômitos, fraqueza)
- Excesso de líquido (inchaço, falta de ar, pressão alta)
- Alterações laboratoriais (potássio alto, excesso de ácidos)
- Estado nutricional
- Qualidade de vida
A diálise costuma ser indicada quando surgem sintomas sugestivos, complicações da doença renal crônica ou o organismo já não consegue manter equilíbrio adequado sozinho.
Por isso, alguns pacientes podem iniciar diálise com TFG abaixo de 5-10 mL/min/1,73m², enquanto outros podem precisar antes, a depender do quadro clínico e alterações laboratoriais.
O que é a diálise?
A diálise é um tratamento que ajuda a “filtrar” o sangue quando os rins já não conseguem fazer isso sozinhos.
De forma simples, ela funciona como um “rim artificial”, ajudando a:
- remover toxinas,
- retirar excesso de líquidos,
- controlar algumas alterações do organismo.
Existem diferentes tipos de diálise, e a indicação depende da situação de cada paciente.
E o transplante renal?
O transplante renal é uma cirurgia em que o paciente recebe um rim saudável de um doador.
Para muitas pessoas, o transplante pode representar uma alternativa a hemodiálise, proporcionando mais autonomia e bem-estar.
Entre os principais benefícios do transplante renal estão a melhora da qualidade de vida, maior liberdade na rotina diária e a possibilidade de uma vida mais ativa e independente.

Doença Renal Crônica sempre leva a diálise?
Não. Nem todo paciente com Doença Renal Crônica vai precisar de diálise.
Muitas pessoas convivem com doença renal por anos — e até por toda a vida — sem chegar à necessidade de diálise.
Isso acontece porque, em muitos casos, a progressão da doença pode ser retardada com o tratamento adequando das doenças e medidas de retardar progressão.
Alguns pacientes permanecem estáveis por muitos anos, principalmente quando o diagnóstico é feito precocemente.
Por isso, o diagnóstico precoce e o acompanhamento com nefrologista fazem muita diferença para preservar a função dos rins pelo maior tempo possível.
A Doença Renal Crônica tem cura?
A Doença Renal Crônica não tem cura, mas através do diagnóstico precoce e tratamento correto é possível:
- Controlar a progressão
- Estabilizar a função renal
- Reduzir complicações
- Melhorar a qualidade de vida
Como tratar a Doença Renal Crônica?
- Controlar a pressão arterial
- Controlar diabetes
- Tratar dislipidemia
- Uso de medicações que protegem os rins (drogas nefroprotetoras)
- Dieta com pouco sal
- Orientação nutricional adequada
- Praticar atividade física regularmente
- Tratar sobrepeso e obesidade
- Cessar Tabagismo
- Evitar anti-inflamatórios e outras medicações sem orientação médica
- Tratamento de complicações como anemia, hipercalemia, acidose
Cada paciente é único — por isso, o tratamento deve ser individualizado, considerando exames, sintomas, hábitos de vida e necessidades específicas de cada pessoa.
Pacientes com Doença Renal Crônica precisam de acompanhamento regular com nefrologista
O acompanhamento permite:
- Monitorar exames
- Ajustar medicamentos
- Controlar fatores de risco
- Identificar e tratar complicações precocemente
A frequência das consultas na Doença Renal Crônica pode variar de acordo com o estágio da doença e com as necessidades de cada paciente.

Nas fases iniciais, quando a função dos rins ainda está mais preservada e a doença está estável, o acompanhamento pode ser realizado em intervalos maiores, como a cada 6 meses.
Já nos estágios mais avançados, quando existe maior redução da função renal, necessidade de ajustes frequentes de medicações ou maior risco de complicações, as consultas costumam acontecer com mais frequência, podendo ser mensais em alguns pacientes.
Quem tem Doença Renal Crônica pode levar uma vida normal?
Em muitos casos, sim.
Muitos pacientes convivem com a doença por anos mantendo qualidade de vida, especialmente quando:
- Fazem acompanhamento regular
- Controlam pressão e diabetes
- Seguem orientações médicas e nutricionais
- Evitam fatores que prejudicam os rins
O tratamento adequado com nefrologista pode retardar bastante a progressão da doença.
Conclusão
A Doença Renal Crônica muitas vezes evolui de forma silenciosa e pode permanecer sem sintomas por longos períodos. Por isso, reconhecer fatores de risco e realizar acompanhamento adequado faz diferença no diagnóstico precoce e na preservação da função renal ao longo do tempo.
Hipertensão arterial, diabetes, obesidade, alterações nos exames de sangue ou urina e histórico familiar são situações que merecem atenção e avaliação individualizada.
Com diagnóstico precoce, acompanhamento regular e controle adequado dos fatores associados, é possível retardar a progressão da doença, reduzir complicações e promover mais qualidade de vida.
Cuidar da saúde renal precocemente é uma forma de cuidar da saúde como um todo.
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